Outro dia, estava dando aula e uma aluna comentou comigo sobre a dificuldade para encontrar profissionais com conhecimento sobre a espondilite anquilosante (EA), que muitos não haviam sequer ouvido falar na doença e que não sabiam como fazer a indicação alimentar para ela.

De fato, a espondilite anquilosante é uma doença que poucos conhecem, assim, resolvi fazer um post para tentar ajudar tanto as pessoas que convivem com a patologia, e para que os profissionais de nutrição lembrem de alguns pontos chaves para o planejamento alimentar. A EA é uma doença crônica e progressiva, que afeta principalmente o esqueleto axial (formado pelo crânio, caixa torácica e coluna vertebral). Adicionalmente, algumas articulações periféricas podem ser afetadas, em particular joelhos, coxofemorais e ombros. A EA integra o grupo das Espondilartrites que também fazem parte a artrite reativa, artrite psoriásica, a artrite associada a uveite, a artrite associada às doenças intestinais inflamatórias e as espondilartrites indiferenciadas.

O organismo humano possui o sistema imune que serve para proteger o indivíduo de um ambiente hostil, que contém vírus, bactérias, fungos, vermes e outros parasitas. Para atuar de forma efetiva, o nosso organismo precisa reconhecer o que é “próprio” do “não-próprio”. Esse importante reconhecimento é realizado através dos Antígenos Leucocitários Humanos (HLA) moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (CPH). Vários estudos identificaram a existência de uma associação entre a EA e o CPH, mais especificamente ao HLA-27.

Bom, e o que tem isso a ver com a alimentação na EA?

A flora intestinal humana é composta de uma variedade enorme de bactérias, todas convivendo em equilíbrio, com funções importantes relacionadas com o sistema imune. A alteração desta flora ocorre de forma mais significativa para as espécies de Helicobacter, bacteroides vulgatus, bactérias redutoras de sulfato e para a Klebsiella Pneumoniae. Nenhuma outra bactéria para além da Klebsiella revelou ter uma influência etiopatogênica tão significativa na EA. A Klebsiella é uma bactéria gram-negativa, que está na origem de diversas infecções, entre as quais a pneumonia e meningite. Nos doentes de EA, encontra-se frequentemente uma concentração aumentada desta bactéria nas fezes, o que permitiu colocar a hipótese de uma possível relação entre a Klebsiella e a doença. Vários estudos já foram e estão sendo desenvolvidos que reforçam este fato. Uma das hipóteses parece ser a semelhança entre a molécula HLA-B27 com a molécula da Klebsiella. Em razão disso, existe a possibilidade de que uma redução da flora intestinal, em particular da Klebsiella, possa ser benéfica, podendo melhorar o quadro clínico.

A flora bacteriana cresce na presença de uma dieta rica em hidratos de carbono. No caso da Klebsiella, esta não consegue crescer na presença da celulose derivada das plantas, mas consegue crescer num meio rico em açúcares simples. Contudo, a glicose, sacarose e lactose são rapidamente absorvidos, não estando, por isso disponíveis para servirem de substrato para a fermentação bacteriana no cólon. Por outro lado, o amido, um dos polissacarídeos mais abundantes nos alimentos de origem vegetal, e que estão presentes nos cereais, tubérculos e em algumas frutas, demoram mais para serem digeridos e assim, podem servir de substrato natural para a flora intestinal.

Deste modo, a orientação nutricional para um paciente com EA, é uma dieta pobre em amido, assim, EVITAR:

a) Pão, bolachas e biscoitos: todos os tipos de pão (de trigo, de mistura, integral, de centeio, sem sal, sem glúten). Todos os tipos de bolacha (Maria, água e sal, cream crackers, com recheio, com cobertura, integrais), barras de cereais, cereais (açucarados e não açucarados), farinha de aveia, centeio ou cevada, bolos e pastelaria, folhados, massa folhada e salgados;

b) Massas: todos os tipos de massa (esparguete, macarrão, noodles, pizzas)

c) Arroz: todos os tipos de arroz;

d) Batatas: todos os tipos de batata, qualquer que seja a confecção;

e) Milho: milho fresco ou enlatado e pipocas.

PODE CONSUMIR:

a) Carne, peixe e marisco: carnes vermelhas (vaca, porco) ou branca (frango, peru, peixe magro (dourada, linguado, robalo), peixe gordo (salmão, sardinha, cavala, bacalhau), charcutaria (fiambre de porco ou de aves, chouriços e linguiças, bacon), todos os tipos de marisco (camarão, lagosta, caranguejo, ostra);

b) Ovos: inteiro, gema e clara, confeccionado de todas as formas;

c) Laticínios: leite integral, desnatado e semidesnatado, iogurtes de todos os tipos (integral, desnatado e semidesnatado, com ou sem pedaços, de aromas ou naturais, com bifidus activo), todos os tipos de queijo (integral, desnatado e semidesnatado, de vaca, de cabra);

d) Produtos substitutos dos derivados de animais: soja, bebida de soja, bebida de arroz, bebida de aveia, bebida de amêndoa, tofu;

e) Vegetais e Fruta: todos os tipos de vegetais (frescos ou enlatados) e frutas (frescas, enlatadas, em calda, cristalizada);

f) Oleaginosas: todos os tipos de frutos secos (noz, amêndoa, caju, pinhão, castanha do Brasil), amendoim, todos os tipos de sementes (girassol, sésamo, chia, linhaça), manteiga de amendoim; g) Gorduras: todos os tipos de gordura (manteiga, azeite, óleo vegetal